Relato de parto hospitalar de Fernanda, hanamãe de Francisco!

Relato de parto hospitalar de Fernanda, hanamãe de Francisco!

 

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“No dia 22 de dezembro de 2014, as 2 da manhã, eu acordei do nada. Pela 1a vez na gravidez, que nesse dia completava 39 semanas e 3 dias. Parecia que minha barriga recebia choques do topo até o pé. Eu sabia que era o momento de verdade. Definitivamente não era o TP falso. Já vinha sentindo as Braxton-Hicks há algumas semanas, mas elas não eram tão intensas assim.

Baixei um app pra contar as contrações: as safadas tavam vindo ritmadas, em 5/4/3 minutos. E fortes, mas viáveis. Me tocava o tempo todo pra ver se a bolsa não tinha rompido, e necas. Resolvi acordar o Hugo, meu namorado, que logo me colocou no banho. “Olha, vou pro banho, mas acho que é real, hein”.

Eram 3:30 da manhã. Nada das contrações passarem ou diminuírem, mas eu tava com sono. Dormimos. Digo, fechei os olhos. Tava muito ansiosa, a dor era totalmente suportável. Eram 6h da manhã quando resolvi tomar outro banho pra ver se passava um pouco da dor nas costas que começou a incomodar e, como já era manhã, ligamos pras meninas do Hanami. Elas são incríveis e sem o apoio da Leti, Ju e Cecília desde o início eu e o Hugo não estaríamos tão sossegados com tudo até agora.

Logo a Leti chegou, fez o exame de toque. Estava com 3cm de dilatação, bolsa intacta, contrações ritmadas. É de verdade. Ligamos para o obstetra, Dr Fernando Pupin, que queria que eu fosse logo pra maternidade. Mas gente, sou teimosa. Óbvio que não fomos.

A partir desse momento do trabalho de parto, eu não lembro de mais nada. Acho que meu cérebro percebeu o tamanho da dor que viria e desligou. Hoje não lembro mais exatamente como era a dor da contração, sei que obviamente doía muito, irradiava pras costas e minha única posição confortável era deitada na cama de barriga pra baixo em cima de um travesseiro. Tipo quando você tá com gases e precisa soltar, sabe? E que eu não conseguia me mexer porque parecia que eu ia rasgar ao meio.

Tem uma tática pra corridas de longa distância, pra você enganar-se e aguentar até o final, que você divide mentalmente o percurso inteiro em pedaços menores. Ao invés de pensar nos 21km que você tem pela frente, pensa em blocos de 3km ou 5km. E vai vencendo etapa a etapa. Pensei assim com as contrações: cada uma que passava era uma a menos que faltava. Ficava repetindo mentalmente “aceita que dói menos aceita que dói menos aceita que dói menos” tantas vezes que acho que isso acabou desligando meus pensamentos.

Alguns momentos do trabalho de parto, relatados pelo Hugo e pela Leti, já que eu não me lembro de nada:

– Tentaram ativar meu trabalho de parto fazendo com que eu subisse e descesse as escadas do prédio. Desci até o 2o andar (moro no 10o) e comecei a ter contrações fortes ao subir de volta. Tão fortes que me acocorei no elevador e aparentemente me recusei a sair de lá.
– Enquanto estive em casa, eu dormi. Às 13h eu convoquei – não pedi, convoquei – o Hugo pra que fôssemos pra maternidade porque senti que tava chegando. Ao chegar lá a internação foi um pouco demorada, o que nos fez aguardar por um tempo na recepção, ao lado da sala de parto. Minha mãe contou que a ocupante de lá berrava muito que “ia morrer”, e ela ficou com medo que eu escutasse e me impressionasse. Mamis, não sabia nem meu nome mais, quanto mais ouvir a moça urrando.
– Essa parte eu lembro: o obstetra veio me examinar as 15h, e pedi que eu escolhesse um número entre 1 e 9. Soltei um (grossíssimo) “ai sei lá, 7″. E ele “errou, 9. você tá com 9cm de dilatação, vou preparar a sala de parto”.
– Também lembro: queria muito fazer xixi. Tanto que as contrações não doíam mais nas costas ou barriga que fosse, doíam na bexiga. Mas não saía nada, por mais que eu tentasse. Numa das N tentativas de fazer xixi, fui sozinha ao banheiro. Hugo me falou depois que ele ficou P da vida pois pensou que me tranquei no banheiro pra ter o bebê sem ninguém junto, quando na real eu tenho certeza que só queria privacidade (sou MUITO chata com xixi). Também falou que bati altos papos com uma enfermeira sobre a minha bexiga tímida.
– Entrando na sala de parto, lembro da mãe me falando “quando tu sair, já serás uma mami também!”. Bonitinha.
– Na sala de parto, já quase as 16h, eu ainda não tinha feito xixi. Hugo e dr Fernando decidiram que seria melhor que uma sonda fosse passada pela uretra, pois a cabeça do Francisco tava impedindo que meu xixi saísse (êta moleque) e com a bexiga cheia daquele jeito, não sairia nem Francisco, nem xixi. Ao perguntarem o que eu achava pelo jeito eu respondi “tanto faz”. Eu não me lembro de absolutamente nada disso, Hugo falou que eu fiz muito, muito, muito xixi.

A bexiga vazia foi o gatilho, pois logo Francisco começou a coroar. Tudo que eu li sobre isso era verdade: as contrações já não doíam mais. Mas olha gente amiga, eu tava morta. Apesar de ter dormido o trabalho de parto praticamente inteiro, todo o processo tinha demandado mais do meu corpo que qualquer meia maratona tenha tomado. A parte boa foi que meu cérebro voltou a ativa e aqui eu lembro de tudo.

A contração nada mais é do que o próprio útero empurrando, então Leti me ensinou a empurrar somente quando a contração chegasse no pé da barriga. Sentei no banquinho de cócoras apoiada na banheira, com o Hugo me apoiando por trás.

A cada contração a Leti pedia “vamos lá! Faz força de cocô!”. E a cada intervalo, eu tentava levantar e rebolar pra que a cabeça encaixasse bem certinho – na verdade, o Hugo e a Leti levantaram muito mais que eu. Eu só ria dos dois. Tava tão dopada de dor/ocitocina que ria feito boba.

Foram 54min de empurra empurra. Tenha em mente que, até aqui, minha bolsa ainda não havia estourado. Dr Fernando chegou na sala, avaliou a situação e colocou vários panos embaixo de mim. Leti pegou na minha mão e falou “Linda, na próxima contração, teu bebê já vai chegar. Força, tá no fim!”, e senti o Hugo me abraçando muito forte. No último empurrão a bolsa rompeu, o que fez com que o Francisco viesse num jato. Dr Fernando o pegou no vôo e o colocou direto no meu colo.

Eu não pensava. Só sentia. Foi sublime. A onda de ocitocina que te invade é descomunal – só de lembrar agora, dois meses depois, fico arrepiada. Ali naquele momento eu só amava, amava tudo e a todos. Especialmente o Francisco e o Hugo, não existia mais ninguém. E deixa eu contar como essa sensação é louca. Ter filhos, família, era uma coisa que eu e o Hugo gostaríamos no futuro. Mas no nosso caso foi tudo de repente, da maneira mais intensa possível e obviamente não planejada. Sempre falamos um pro outro que o Francisco é a representação desse nosso amor, era pra ser nós dois e agora. No momento que o Francisco chegou, não foi ele que nasceu sozinho, não foi assim tão mecânico. Nasceu um pai, nasceu uma mãe, nasceu uma família, concretizou-se um projetinho. Nada mais de antes importava. A partir dali, deixamos de ser eu e ele e viramos nós três.

Toda a equipe que nos atendeu foi mais que respeitosa. Francisco ficou no meu colo por 40 minutos enquanto a placenta não saiu, ainda com o cordão intacto. Logo já mamou por alguns minutos e dormiu um pouco (tal mãe, tal filho). Então o Hugo clampeou o cordão e eu o liberei pros procedimentos da pediatra – Apgar 9/9, 3.303kg e 47.5cm de muito choro agudo e amor.

Sem laceração alguma (portanto sem suturas nem pontos nem nada), sem indução e sem analgesia, com 10h de trabalho de parto e um bebê lindíssimo que já nasceu mamando. Nem nos meus planos imaginava um parto tão ideal.

E foi assim que o Francisco chegou. Cheguei a conclusão que foi uma gama de fatores que me ajudaram a ter esse parto tão bacana – o apoio e participação incondicional do Hugo desde o 1o dia que decidimos pelo parto natural, as meninas do Hanami, nosso obstetra dr. Fernando Pupin, a equipe da sala de parto do Hospital Ilha. E também toda a preparação que nós três tivemos desde que conhecemos o parto natural, aos 4 meses de gravidez: yoga, caminhada, pilates, dieta, apoio moral, tudo. Minha cabeça tava feita desde o início, acabou influenciando o Francisco pra nos ajudar também 🙂

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